sábado, 22 junho 2024
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Chocolate amargo diminui fissura por cigarro em quem está tentando parar de fumar, diz estudo brasileiro

Pesquisadores acompanharam pacientes que consumiram chocolate 70% durante 30 dias e não ganharam peso no período; medo de engordar é um dos entraves do tratamento.

Uma das principais dificuldades enfrentadas pelo tabagista que busca largar o cigarro é superar o período de abstinência, que geralmente dura de duas a três semanas. A fissura é manifestada por sensações de desconforto, angústia e um desejo intenso de fumar novamente. Diversas estratégias são empregadas para auxiliar o fumante a atravessar esse período sem desistir. Um estudo da Universidade Federal Fluminense (UFF), conduzido no Brasil, revela que o chocolate amargo pode ser uma alternativa para ajudar aqueles que desejam abandonar o vício.

Os resultados da pesquisa (leia mais abaixo sobre como ela foi realizada) indicam que o consumo diário de uma porção de 40 gramas de chocolate amargo (com 70% de cacau) contribuiu para a diminuição da fissura em fumantes que estavam em tratamento. E importante: sem afetar as medidas corporais dos pacientes.

O medo de ganhar peso é justamente uma das razões que levam as pessoas a relutarem em parar de fumar. Segundo a nutricionista Aline Silva de Aguiar, especialista em dependência química e responsável pelo estudo, isso ocorre porque os fumantes desenvolvem uma seletividade alimentar devido à ação da nicotina, que acelera o metabolismo e interfere nas papilas gustativas da língua, reduzindo a sensação de sabor dos alimentos para o tabagista.

“Ele tende a pular refeições, não tomar café da manhã, tende a comer sempre de forma monótona por não sentir o prazer do sabor. Associado a isso, o Índice de Massa Corporal (IMC) de quem fuma tende a ser mais baixo. Geralmente, ele é uma pessoa mais magra. Então, quando parar de fumar, a pessoa começa a compensar essa falta do cigarro comendo alimentos mais palatáveis, geralmente doces, gordurosos e ultraprocessados. Sem a nicotina, o metabolismo deixa de estar acelerado e volta ao normal. Por isso, pode ser que a pessoa ganhe um pouco de peso”, explica Aguiar, que também é professora do Departamento de Nutrição e Dietética da Faculdade de Nutrição da UFF. Ela ressalta que “o ganho de peso ao parar de fumar é irrisório perto dos benefícios de abandonar o cigarro”.

Como foi feita a pesquisa

A pesquisa foi realizada por nutricionistas do Grupo de Pesquisa em Nutrição Translacional da UFF, coordenado por Aguiar. Durante um mês, eles realizaram um estudo de intervenção clínica com 47 fumantes portadores de comorbidades crônicas (entre elas, diabetes e hipertensão) que eram atendidos na Unidade de Assistência Integral ao Tabagista, do Núcleo Interdisciplinar de Estudos e Pesquisa em Nefrologia, na cidade de Juiz de Fora (MG).

“Trabalhamos com pacientes com comorbidades, que geralmente são excluídos de outros estudos clínicos”, explica. A abordagem para tratamento do tabagismo tem como base o protocolo proposto pelo Instituto Nacional de Câncer (Inca).

A nutricionista ressaltou que a maioria dos serviços voltados para a cessação do tabagismo não possuem nutricionistas na equipe – por isso, ela decidiu participar de um ambulatório dentro do Sistema Único de Saúde (SUS) para poder avaliar o impacto do alimento (no caso, o chocolate) como parte da intervenção para parar de fumar.

Os tabagistas que participaram do estudo de intervenção foram divididos em dois grupos: um deles recebia 40 gramas de chocolate amargo para consumir ao longo da semana, além de receber orientação nutricional para cessação do tabagismo ministrada pelos nutricionistas. Já o outro grupo, o controle, recebia apenas a orientação nutricional.

“Não tinha como fazer grupo placebo porque estávamos oferecendo chocolate. Fizemos um grupo que recebeu mix de frutas secas e oleaginosas, mas os resultados serão reportados em outro artigo”, diz a pesquisadora.

Toda semana, os voluntários respondiam a um questionário sobre a fissura quando retornavam para o atendimento na unidade. Ao final deste período, ao analisar as respostas, os pesquisadores concluíram que o grupo que consumiu chocolate relatou menos episódios de fissura e menor desejo de fumar em comparação ao grupo que recebeu apenas intervenção comportamental. Além disso, quando comparado com o mix de frutas secas, o chocolate também apresentou resultados superiores.

Mas afinal, o que o chocolate amargo tem? Segundo a nutricionista, o cacau apresenta uma grande quantidade de compostos que impactam nos processos cognitivos e alterações de humor, além de oferecer atividade antioxidante e anti-inflamatória. O consumo de cacau contribui para a redução do estresse, auxiliando na minimização dos sintomas associados à ansiedade e alterações de humor. A escolha do chocolate amargo (70%) ocorreu precisamente devido à sua maior concentração de cacau, o que se traduz em mais efeitos benéficos.

Estratégias para lidar com a abstinência

A síndrome de abstinência representa um desafio significativo para os tabagistas, uma vez que pode comprometer o processo e resultar em recaídas. Muitos abandonam o tratamento devido à dificuldade em lidar com esse problema.

“Grande parte dos fumantes precisa de mais de uma tentativa para parar de fumar exatamente por conta disso. Muitos precisam de duas, três, quatro, até mesmo cinco tentativas. A gente tem que deixar claro para o paciente que isso é normal e continuar estimulando para que, assim que ele se sentir confiante novamente, faça uma nova tentativa”, explicou a pneumologista Luiza Helena Degani Costa, do Hospital Israelita Albert Einstein, e professora da Faculdade Israelita de Ciências da Saúde Albert Einstein.

Existem diversas estratégias para a prevenção e tratamento da fissura, que variam desde abordagens medicamentosas, como o uso de terapia de reposição de nicotina e medicamentos para redução da ansiedade, até mudanças no estilo de vida, que incluem a prática de exercícios físicos para diminuir a ansiedade e a compulsão alimentar. Deve-se também evitar situações que desencadeiem o desejo de fumar, como o consumo de álcool e café, e buscar alternativas, como comer palitinhos de cenoura, erva-doce ou pedaços de maçã quando surgir a vontade de fumar. Normalmente, orienta-se que o paciente evite substituir o cigarro por doces ou balas, pois isso frequentemente contribui para o ganho de peso.

Com o resultado desse estudo, a ideia da nutricionista é que o tabagista tenha mais opções disponíveis para o momento da fissura. “Sentiu vontade de fumar? Pega um pedacinho de chocolate 70% cacau, põe na boca, embaixo da língua, e vai sentindo o sabor devagar. Isso ajuda na sensação de bem-estar”, sugere.

Na avaliação da pneumologista do Einstein, o estudo aborda um tema importante, que é a prevenção e o tratamento da fissura em pacientes em processo de cessação do tabagismo, embora ainda não apresente evidências definitivas: “outros trabalhos precisam ser feitos, com tamanho amostral maior, deixando clara a taxa de aderência à terapia proposta e avaliando o desfecho de sucesso ou não da cessação do tabagismo e eventual recaída”.

“O que gera o ganho expressivo de peso é a troca da compulsão do cigarro pela compulsão por comida, doces, balas. O que precisamos fazer é tratar, prevenir gatilhos e orientar o paciente no reconhecimento precoce da fissura. Quanto mais estratégias tivermos, melhor será para o paciente. Se o chocolate amargo puder ajudá-lo a passar por esse processo de forma mais leve e menos sacrificante, será muito bom. O processo nunca vai ser simples, nunca vai ser fácil, mas podemos tentar deixá-lo menos difícil”, finalizou a pneumologista.

Por Fernanda Bassette, da Agência Einstein

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